Seletividade Alimentar: Quando as “Manhas” à Mesa São Sinais de Desregulação

Seletividade Alimentar: Quando as “Manhas” à Mesa São Sinais de Desregulação

Por vezes, o que é visto como “manhas” à mesa é, na verdade, cansaço, fome acumulada ou dificuldade em regular emoções. Quando a criança está em esforço (sono desregulado, transições, frustração, ansiedade), o corpo entra em modo de “defesa” – e a refeição pode tornar-se num momento mais difícil. 💛

Compreender a Seletividade Alimentar

A seletividade alimentar é mais comum do que muitos pais pensam. Além disso, nem sempre está relacionada com “preguiça” ou “capricho”. Por isso, é importante compreender que a seletividade alimentar pode ter várias causas:

  • Dificuldade sensorial (texturas, cheiros, temperaturas)
  • Ansiedade ou medo de alimentos novos
  • Falta de regulação emocional
  • Sono desregulado ou cansaço
  • Transições ou mudanças na rotina
  • Pressão excessiva à mesa
  • Experiências negativas anteriores com certos alimentos

Quando compreendemos a causa, conseguimos apoiar melhor a criança.

O Papel da Regulação Emocional na Alimentação

Quando a criança está em esforço emocional ou físico, o corpo entra em modo de “defesa”. Assim, isto significa que o sistema nervoso está ativado e a criança tem menos capacidade para lidar com novidades ou desafios. Por isso, a refeição pode tornar-se num momento mais difícil.

Exemplos de situações que podem desregular a criança:

  • Sono desregulado ou insuficiente
  • Transições abruptas (mudança de atividade, mudança de escola)
  • Frustração acumulada
  • Ansiedade ou preocupação
  • Mudanças na rotina
  • Estimulação excessiva

Quando a criança está neste estado, é comum notar comportamentos à mesa que parecem “manhas”, mas que são, na verdade, sinais de desregulação.

Sinais Comuns de Desregulação à Mesa

É importante estar atento aos sinais que podem indicar desregulação:

Menos apetite ou maior seletividade

Quando a criança está desregulada, o apetite pode diminuir. Além disso, pode tornar-se mais seletiva com os alimentos, recusando coisas que normalmente come. Por isso, isto é uma resposta natural do corpo.

Mais resistência a texturas, cheiros ou temperaturas

A criança pode desenvolver sensibilidade aumentada a características sensoriais dos alimentos. Assim, pode recusar alimentos que antes comia, ou mostrar repugnância exagerada. Além disso, isto é particularmente comum em crianças com sensibilidade sensorial aumentada.

Maior irritabilidade e dificuldade em permanecer sentado(a)

A criança pode ficar mais irritável durante as refeições, recusando-se a ficar sentada. Por isso, pode haver birras, choro ou comportamentos de evitamento. Além disso, isto indica que o corpo está em modo de defesa.

Necessidade de rotinas muito rígidas para “se sentir seguro(a)”

Quando desregulada, a criança pode exigir rotinas muito específicas e rígidas à mesa. Por exemplo, o prato tem de estar num local exato, a comida tem de ser servida de uma forma específica. Assim, isto é uma forma de a criança tentar recuperar controlo e segurança.

Estratégias Simples para Refeições Mais Previsíveis e Tranquilas

Existem várias estratégias práticas que podem ajudar a criar refeições mais previsíveis e tranquilas:

Rotina de horários

Estabeleça horários consistentes para as refeições. Desta forma, a criança sabe quando é hora de comer e consegue preparar-se mentalmente. Além disso, isto ajuda a regular o apetite e a digestão.

Chegar à mesa regulado(a)

Antes de sentar à mesa, certifique-se de que a criança está regulada. Por exemplo:

  • Tenha dormido o suficiente
  • Não está muito cansada
  • Não está muito estimulada
  • Teve tempo para transição entre atividades

Assim, a criança consegue estar mais aberta à refeição.

Sem pressão para comer

Evite pressionar a criança a comer. Por isso, não diga coisas como “tem de comer tudo”, “come mais um bocado”, ou “isto é bom para ti”. Além disso, isto aumenta a ansiedade e reduz a motivação para comer.

Prato “seguro” + 1 novidade pequena

Ofereça alimentos que a criança gosta (prato “seguro”) juntamente com uma pequena novidade. Desta forma, a criança consegue comer algo familiar e, ao mesmo tempo, tem oportunidade de explorar algo novo sem pressão.

Exposição repetida

Ofereça alimentos novos várias vezes, sem pressão. Assim, a criança consegue familiarizar-se gradualmente. Além disso, pode levar várias exposições até a criança aceitar um alimento novo.

Ambiente previsível

Crie um ambiente à mesa que seja calmo e previsível. Por exemplo:

  • Sem distrações excessivas (televisão, brinquedos)
  • Luz adequada
  • Temperatura confortável
  • Pessoas calmas e focadas na refeição

Desta forma, a criança consegue concentrar-se na refeição.

Nomear emoções

Ajude a criança a nomear e validar as suas emoções à mesa. Por exemplo:

  • “Vejo que estás com medo deste alimento”
  • “Parece que estás cansado(a)”
  • “É difícil experimentar coisas novas”

Assim, a criança sente-se compreendida e consegue regular melhor as suas emoções.

Sono como prioridade

O sono é fundamental para a regulação emocional e o apetite. Por isso, certifique-se de que a criança dorme o suficiente e tem uma rotina de sono consistente. Além disso, quando a criança dorme bem, consegue lidar melhor com desafios à mesa.

Quando Procurar Ajuda Especializada?

Se observa que a seletividade alimentar está a afetar significativamente a nutrição ou o bem-estar da criança, pode fazer sentido procurar ajuda. Por exemplo:

  • A criança está a perder peso ou não está a crescer adequadamente
  • A seletividade está a aumentar, não a diminuir
  • A criança tem medo extremo de certos alimentos
  • As refeições são momentos de grande conflito familiar
  • Há sinais de desnutrição ou deficiências nutricionais

Um nutricionista pediátrico ou terapeuta da fala especializado em alimentação pode ajudar a avaliar e oferecer estratégias personalizadas.

Compreender para Apoiar Melhor

A chave é compreender que a seletividade alimentar é frequentemente um sintoma de algo mais profundo – falta de regulação, ansiedade, sensibilidade sensorial ou falta de segurança. Por isso, quando abordamos a raiz do problema, conseguimos apoiar melhor a criança.

Lembre-se: as refeições devem ser momentos de conexão e prazer, não de conflito. Assim, com paciência, compreensão e estratégias adequadas, é possível criar uma relação mais saudável com a comida.

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