Perturbação Específica da Linguagem: Quando a Dificuldade é Mais do Que Uma Fase

Perturbação Específica da Linguagem: Quando a Dificuldade é Mais do Que Uma Fase

O seu filho fala “mais tarde” do que outras crianças? Troca palavras, tem dificuldade em construir frases ou parece não acompanhar instruções para a idade? É normal que pais e educadores fiquem com dúvidas. Além disso, é importante saber que nem todas as dificuldades de linguagem são “preguiça”, “falta de estímulo” ou “uma fase”. 🗣️

O que é a Perturbação Específica da Linguagem (PEL)?

A Perturbação Específica da Linguagem (PEL) é uma dificuldade persistente no desenvolvimento da linguagem. Assim, pode afectar a expressão (capacidade de falar) e/ou a compreensão (capacidade de entender). Por isso, esta dificuldade pode manifestar-se através de:

  • Vocabulário limitado para a idade
  • Dificuldade em construir frases com a complexidade esperada
  • Problemas na organização do discurso (contar histórias, explicar ideias)
  • Dificuldade em seguir instruções ou compreender conceitos
  • Troca ou omissão de sons nas palavras
  • Dificuldade em encontrar palavras no momento (anomia)

Importante: a PEL não é causada por deficiência auditiva, atraso global do desenvolvimento ou problemas neurológicos identificáveis. Portanto, trata-se de uma dificuldade específica na área da linguagem.

Sinais de alerta para a PEL

Embora cada criança tenha o seu ritmo de desenvolvimento, existem sinais que podem sugerir a necessidade de avaliação. Por exemplo:

Até aos 2 anos:

  • Vocabulário muito limitado (menos de 50 palavras aos 2 anos)
  • Ausência de palavras simples ou gestos comunicativos
  • Dificuldade em compreender palavras comuns

Dos 2 aos 3 anos:

  • Frases muito curtas ou ausência de frases
  • Dificuldade em seguir instruções simples
  • Vocabulário que não cresce ao ritmo esperado

Dos 3 aos 5 anos:

  • Dificuldade em construir frases com estrutura gramatical apropriada
  • Troca frequente de sons ou palavras
  • Dificuldade em contar histórias ou descrever eventos
  • Compreensão limitada de instruções ou perguntas

Idade escolar:

  • Dificuldade em acompanhar o ritmo da aprendizagem da leitura e escrita
  • Problemas em seguir instruções na sala de aula
  • Dificuldade em participar em conversas ou fazer amigos
  • Atraso na aprendizagem de conceitos académicos

Dúvidas comuns sobre a PEL

“Ele entende tudo, só não fala muito… pode ser PEL?”

Sim, pode. Algumas crianças compreendem melhor do que conseguem expressar. Por isso, é importante avaliar o conjunto dos sinais: compreensão, expressão, desenvolvimento motor, comportamento e evolução ao longo do tempo. Desta forma, um profissional consegue fazer um diagnóstico mais preciso.

“Se for PEL, passa com o tempo?”

Com apoio adequado, há progressos muito significativos. No entanto, quando existe uma dificuldade persistente, esperar “para ver” pode atrasar a intervenção. Assim, quanto mais cedo se identifica e se inicia o apoio, melhores são os resultados. Além disso, a plasticidade cerebral é maior nos primeiros anos, o que facilita a aprendizagem.

“Pode afetar a escola?”

Sim, definitivamente. A linguagem é a base para aprender: seguir instruções, contar o que aconteceu, aprender a ler e escrever, fazer amigos e participar em sala de aula. Por isso, uma dificuldade de linguagem não tratada pode impactar o desempenho académico e a integração social.

“É culpa minha? Não estimulei o suficiente?”

Não. A PEL não é causada por falta de estímulo ou “preguiça”. Portanto, é uma dificuldade específica do desenvolvimento neurológico. Por isso, é importante não culpabilizar-se. O que importa agora é procurar apoio especializado.

O papel da Pediatria do Neurodesenvolvimento

A Pediatria do Neurodesenvolvimento é essencial para enquadrar a dificuldade de linguagem no contexto global da criança. Assim, o neuropediatra:

  • Enquadra o desenvolvimento global: não olha apenas para a fala, mas para o desenvolvimento motor, cognitivo, comportamental e social.
  • Identifica sinais associados: atenção, comportamento, aprendizagem, motricidade fina e grossa, socialização.
  • Orienta avaliações necessárias: pode solicitar avaliação audiológica, testes de desenvolvimento ou outras investigações.
  • Articula com a Terapia da Fala: trabalha em conjunto com o terapeuta da fala para definir objetivos e estratégias.
  • Comunica com a escola: orienta educadores e professores sobre como apoiar a criança em contexto escolar.
  • Define um plano de acompanhamento: personalizado à criança e à família, com objetivos realistas e prazos de revisão.

Quando procurar ajuda?

Se observa sinais de dificuldade de linguagem, não hesite em procurar avaliação. Assim, um profissional pode:

  • Confirmar se existe uma dificuldade ou se é apenas uma variação normal do desenvolvimento
  • Identificar a causa (se houver)
  • Definir um plano de intervenção
  • Oferecer orientação e apoio à família

Lembre-se: procurar ajuda cedo não é sinal de alarme. Na verdade, é um acto de cuidado com o desenvolvimento e o bem-estar da sua criança.

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